“Sal é Sal”

Este fim de semana fui, com a família, até ao Algarve, Vila Real de Santo António. No caminho, a passar por Castro Marim, um grande cartaz na estrada despertou a minha atenção: “Natural. Pura. Saudável”, em letras enormes, sobre uma imagem em tons de branco e em baixo, em letras mais pequenas, “Flor de Sal”.

Estas coisas mexem comigo. Sal é sal. Vamos deixar isto bem claro. Sal é um composto químico constituído por sódio e cloro – cloreto de sódio, essencial à nossa saúde, mas apenas necessário em quantidades muito pequenas, muito inferiores ao atual consumo.

Existem vários tipos de sal, cujas diferenças estão associadas à forma e local de extração e refinação, mas sal é sal. Nestes diferentes tipos de sal – sal grosso, de mesa, flor de sal, sal dos Himalaias, kosher, etc, as percentagens de cloreto e de sódio variam pouquíssimo, e não o suficiente para se poder dizer que se pode ingerir mais de um tipo de sal em relação a outro. E este é o principal problema. O recomendado pela Organização Mundial de Saúde é um consumo máximo de 5 por dia, ou seja, uma colher rasa de chá. Um consumo acima deste valor traz Riscos para a saúde, como o aumento da pressão arterial, com a consequente associação a outras doenças cardiovasculares. O atual consumo em Portugal é o dobro e com este tipo de publicidade corremos o risco de, havendo sal saudável, então não há limite.

Podemos dizer que os diferentes tipos de sal, menos refinados, como a flor de sal ou outros, são mais ricos em minerais. Sim, é verdade, mas ainda assim não é no sal que deve assentar o nosso aporte em micronutrientes e a dita “riqueza” também não justifica o seu consumo.

Aqui fica um exemplo: 100 g de sal refinado tem 3 mg de cálcio; 100 g de sal dos Himalaias tem 16 mg de cálcio, ou seja, 5 vezes mais. Mas estamos a falar de 100 g de sal. E o valor recomendado de cálcio por dia é de 1000 mg (adultos). Faz algum sentido considerar a potencial riqueza em micronutrientes ? Não. Sal é sal. Não existe sal saudável ou com efeito benéfico sobre a saúde. O sódio, como já referi é essencial à vida, mas o sódio naturalmente presente nos alimentos é suficiente para cobrir as nossas necessidades.

Compreendo que o sal tem um papel importante no paladar dos alimentos, mas também esse aspeto é passível de educação e devemos educar o nosso palato (em particular as crianças) para um consumo cada vez menor e, acima de tudo, não justificar o consumo com base no pressuposto de que é um sal especial ou saudável, porque não é.

Cláudia Viegas

Nutricionista
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